Assunto: Não entrei no mestrado

Setembro 20, 2009

22 de fevereiro de 200_

Ai amiga,

Que foda isso, viu? Tô cansada de te ligar chorando. Sério, perdeu a graça! risos… coitadinha da Valdinéia que teve que me aturar. Ela é uma fofa! Bem, não sei quando vc vai ler isso, espero que esteja se divertindo demais na Europa pra ficar checando email, mas aqui vai.

Não entrei.

Pois é, o resultado saía ontem e não entrei. Não entrei. Não entrei.

O doutor Thompson, que agora vou chamar de Bill, né?, fudeu mesmo!, me ligou, me chamou pra tomar um café, e só pela voz dele eu já sabia que tinha dado merda, sabe?, não me deu os parabéns, nem nada, óbvio q eu não tinha entrado, tão óbvio que nem perguntei, minha voz embargou e eu disse que claro que encontrava ele as 6, seria um prazer, e desliguei rápido, porque as lágrimas já vinham subindo, e fiquei no banheiro chorando um pouco, tomei um bom banho pra lavar as mágoas e depois me arrumei bastante, pra mostrar que estava bem e linda e poderosa, quem precisa de mestrado, né?, mas só por precaução não me maquiei, porque se fosse chorar, era melhor chorar de cara limpa.

Coitado do Bill. O homem tava pior que eu. Ele é geralmente tão composto, tão seguro, e estava abalado, nervoso, me pediu mil desculpas, ficou se desculpando o tempo todo, disse que a culpa era toda dele, que era tudo política, que não era reflexo na minha competência nem nada, que eu tinha um currículo ótimo, que a carta de recomendação foi impecável, e nessa hora puxou até um envelopinho e me deu, ele estava tão nervoso que queria que eu visse, sabe?, queria que eu visse a carta de recomendação, queira que eu visse que ele tinha feito a parte dele, coitadinho, e eu não queria não, deus q me livre, sabe lá que verdades horríveis tinham ali dentro, mas nada!, o homem fez tanto o meu filme que só faltou dizer que mereci o Nobel, tirei uma foto da carta pra vc ver, to mandando junto com o email, o homem explica minha pesquisa em detalhes, fala que eu sou uma liderança no campo, diz até que a UFRJ é a melhor e mais antiga universidade do Brasil!!, um país que será a próxima potência científica do mundo!!!, e ainda termina dizendo que o departamento tinha sorte de eu já estar na cidade acompanhando meu marido e que não podiam perder a chance de incorporar meu talento aos quadros!, e eu fiquei super vermelha, magina!, logo eu que bombei estatística tres vezes, disse que eu não merecia nada daquilo, que ele tinha exagerado feio, e o homem respondendo que não, que eu era boa mesmo, e que era uma pena nosso (quer dizer, o dele!) departamento perder uma scolar assim, mas que era tudo politicagem, sabe, faca nas costas e dedo no olho, ele não imaginava que tinha pisado em tantos calos no ano anterior, que tinha ganho tantos grants a mais que os outros, que esse era o modo deles se vingarem, sabe?, e ele dizia assim, it’s nothing personal, it’s a reflection on me!, que quem foi rejeitado foi ele, por aqueles motherfuckers, mas que ele era full professor e eles iam ver só, se queriam guerra, teriam guerra, e menina, o homem passou de choroso a beligerante, deu uns socos na mesa, falou das escapadas sexuais de uns, contou fofocas quentérrimas de outros, e eu pensando, meu deus, onde é que fui amarrar meu burro?, esses romanos são loucos!, e sabe que foi até bom?, porque ele estava oscilando tanto entre ficar deprimido e revoltado que consolá-lo acabou sendo uma boa maneira de esquecer a merda em que estava a minha vida, mas foi por muito pouco tempo, pq já no caminho de volta pra casa eu comecei a chorar de novo e, menina, conselho de penélope novaiorquina, nunca chore num dia de inverno em novaiorque quando está ventando e fazendo menos vinte graus farenreit. Sério. Faz isso não. Confia em mim. Mas, enfim, comecei a pensar, sabe?, pensei no calendário, estávamos em fevereiro, e eu achando que comecaria a estudar e ganhar bolsa já em setembro daquele ano, mas agora, na melhor das hipóteses, seria setembro do ano que vem, ou seja, daqui a quase vinte meses, quase dois anos! Mais dois anos de vida bunda, de vida pobre, de vida doméstica. Porra, e o pior é que todo mundo me deu tanta certeza, todo mundo me vendeu tanto esse sonho! Fiz um semestre de aula com a porra do Bill, lutando contra a língua, contra o método, contra os colegas escrotos, contra tudo e contra todos, e ele dizendo q eu era brilhante, q meu experimento era lindo, que a prova ficou perfeita, e o William dizendo que ele era um dos full professors do departamento, que com uma carta dele não tinha erro, sabe, tudo lindo e perfeito, tudo garantido, não tem como dar errado!!!, mas é sempre a penelopezinha aqui que se fode, que fica sem, que leva na cabeça, porra. Dane-se se a culpa foi dele, se foi do El Niño, da recessão, do aquecimento global, quem vai passar fome no minimo mais dois anos sou eu, nessa porra de cidade de merda fria longe de casa saco saco po eu larguei tudo pra vir pra cá por amor por uma promessa mas caralho faz seis meses q é uma porrada atras da outra há seis meses q nao tenho uma alegria uma vitoria nada pra comemorar era pra isso foi pra isso que vim pra novayork foi foi saco e vcs todas dizendo q sou chique de morar em manhattn e coisa tal mas chique porra q chique chique é morar em ipanema e passar ferias na europa q enm vc passar fome em hantattn eh coisa de pobreee nunca me senti tao burra tao pobre tao jeca saco e nao adianta nao dah pra perder essa certeza q nao sabe q nao q eles todos mentiram pra mim e eu é q sou burra burra burra incapaz idiota burra ah amiga chega se diverte aí nas europa tá e volta pra sua penelope foi mal


Assunto: Historias falidas de natal

Setembro 17, 2009

27 de dezembro de 200_

Oi Léia!

Que bom que vc finalmente recebeu o cartão, eu devo ter calculado mal o tempo que demora pra chegar, ou então foi o engarrafamento de natal! Ou preguiça do carteiro! risos… É, esse é o nosso cafofo mesmo. Tá vendo como a gente trouxe pouca coisa? O quadro da vovó na parede da sala e o seu vasinho na mesa de centro. :)

Você tem razão quanto a grana, mas não quero mesmo pedir ajuda aos meus pais. Não tem nada a ver.

O natal foi um pouco difícil. Passamos na casa de um professor do departamento do William. Quase todo mundo viajou no natal, foram visitar suas famílias, caçar seus loved ones, essas coisas, aí o Jeff, que é um solteirão pintoso, chamou nós dois, um outro peruano esquisitão de Sociologia, uma professora de Química quarentona e recém-separada, um chinês bolsista da graduação, sacou?, só o povo que não tinha pra onde ir, ou duro demais pra chegar lá! risos… Foi meio deprê. O natal dos perdidos e encalhados.

Mas é engraçado, sabe, porque de certa maneira a sociedade americana é toda assim, um país de pessoas perdidas e encalhadas, sozinhas e desenraizadas, nômades e tristes. Esse professor, por exemplo, o Jeff, gente boa, sessentão solitário, nunca nem casou, nem cachorro ele tem, nasceu num estado, cresceu noutro, fez faculdade em outro, mestrado em outro, doutorado em outro, arranjou seu primeiro emprego na costa oeste, seu segundo emprego aqui, conseguiu o tal tenure, está aqui há 10 anos, mas não tem parentes nem amigos de infância aqui, nenhuma relação afetiva com essa cidade. Perguntei onde era sua casa, seu home, e ele não soube bem responder. O lugar onde morou mais tempo foi sua cidade natal no meio do nada em Wisconsin, de onde saiu aos 17 anso e só voltou pra rápidas visitas. Depois disso, o lugar onde morou mais tempo foi aqui em Nova York, nos últimos dez anos, já cinquentão. Antes disso, por toda a sua vida adulta, nunca passou mais de cinco anos em um lugar só. E eu fico pensando: como é isso? O que ele leva de um lugar para o outro? Só leva a si mesmo, não? Seu próprio corpo acaba sendo a única constante da sua vida. Será que esses americanos são tão individualistas que, pra eles, sua casa, sua comunidade, são eles mesmos enquanto indivíduos? Me parece tão frio, tão egoísta, tão vazio. Mas, por outro lado, é um cara gente boa toda vida, abriu a casa aos desquitados carentes, estendeu a mão aos estrangeiros deslocados, e fico pensando: será que ele passa mesmo todos os natáis assim, cercado de estranhos? Por bondade ou por carência? Será que ele é feliz?

Ah, lembrei, mudando de assunto, teve uma parte do seu outro email que me fez rir alto, o William quis saber o que era, eu até hesitei em dizer, pq sabia o que ia acontecer, mas contei que vc perguntou se não rolava um 13o pra aliviar a pobreza do nosso natal, e pronto, lá desembestou o economista, com toda uma longa teoria sobre o 13o, q na verdade não era ajuda nenhuma, q no brasil as pessoas ganham a mesma coisa q ganhariam, o patrão só divide o salário anual em 13 partes e não em 12, mas q dá na mesma, é uma ilusão assistencialista (vc acredita q tive q ouvir isso?) e q aqui é melhor pq as coisas são mais as claras, o trabalhador ganha por ano e ele q economize o q quiser pras suas compras de natal. Ai, menina, e eu quase perguntei, e vc, senhor trabalhador, quanto economizou pras compras de natal da sua família, hein?, mas até eu sei que tem coisas que não posso falar.

Então, ai ai ai, deixa eu contar a continuação do drama “penélope favelada em Nova York”. O William recebe a bolsa em cheques quinzenais, mas a gente não sabia que é só durante o período de aulas, então ele recebeu o último cheque dia 5 de dezembro, e estávamos contando com outro cheque dia 19, e depois outro dia 2, mas nada!, o próximo é só dia 16 de janeiro, depois das férias de inverno, e o pior é que a gente tava realmente vivendo no limite, sabe?, um dia depois do outro, um centavo de cada vez, e já estávamos com tudo programado, que compraríamos os presentes de natal pras pessoas da festa com o cheque do dia 19, que pagaríamos o aluguel com o cheque do dia 2, essas coisas, e fomos pegos totalmente com as calças na mão, e eu nem consegui brigar com ele, você precisa ver a cara do William quando chegou da universidade com essa notícia, ainda mais depois de passar o dia 16 e o dia 17 inteiros dando reload no site do banco pra ver se o cheque tinha caído, e ele esfregava a cabeça e dizia assim, você entende que não faz diferença, né?, pq a minha bolsa é _____ anuais e continua sendo, a gente não perdeu nenhum dinheiro, só nos confundidos na distribuição dos cheques, ficou tudo igual, tudo igual, blá blá, e eu nem vou me meter, né?, homem parece criança, quando surta tem que deixar quieto, o que eu sei é que ao invés de termos um tantinho a mais pq é natal, tivemos um tantinho a MENOS pq era natal, tivemos que aparecer na ceia sem levar nada nada pq não tinhamos nem pro metrô até lá, quem dirá pra lembrancinhas, mas o economista que vai salvar os fundos de pensão da America Latina, hoho, disse que deu tudo na mesma. Ai ai. Na verdade, de mãos vazias não, pq como não tínhamos presentes, eu peguei um pacote de polvilho azedo aqui na despensa, que comprei numa loja de brasileiros na 46 pra um dia exatamente como esse, fiz um tabuleiro de pao de queijo e levei pra ceia, fez o maior sucesso. E segunda feira agora o pobrezinho do William vai lá pro banco que nem um pedinte, implorar um empréstimozinho pelo amor de Deus, pq aqui não é que nem o Brasil, o nosso aluguel vence dia 5 e se não pagarmos, o senhorio pode nos botar pra fora em três dias úteis, não tem burocracia nem chororô, e bota na rua mesmo, no meio da nevasca e tudo, ainda mais em Manhattan!, ele põe a gente pra fora de manhã, aumenta o preço em 20% pq virou o ano, e de tarde já tem o próximo inquilino se mudando pra lá. E enquanto isso, claro, hahahha, Brasil meu Brasil brasileiro, você sabe, né, um dos motivos da gente estar sem grana é que faz dois anos q não recebemos aluguel pelo apartamento que era da avó do William, lá na Rui Barbosa, chiquerérrimo, Morro da Viuva e talz, quarto quartos e dependências, mas a família q está lá, gente chique, o cara trabalha de executivo de banco!!, de banco!, diz que quebrou, que não tem dinheiro, que não tem pra onde ir, que a mulher é doente, que o filho é pequeno, que o céu é azul, qualquer desculpa é válida, e resultado é q não pagam aluguel há dois anos, não pagam condomínio há quatro (e a gente nem fazia idéia até pararem de pagar o aluguel também!), o condomínio atrasado acumulado já está em 80 mil reais!, o William ameaçado de perder o imóvel, o canalha do inquilino diz que não tem de onde tirar, não tem nem mais nenhum bem pra vender, já vendeu tudo, me sacode o que cair é teu, o William já gastou uma fortuna de advogados, e já desistiu até de arrancar dinheiro deles, ficaria feliz só em tirar eles de lá e poder alugar o apartamento de novo pra começar a diminuir o prejuízo, mas nada, pq no bananão pra tirar um inquilino inadimplente só com bala de prata, e enquanto isso, segunda feira, coitadinho, vai todo humilde pra um banco gringo, chegar lá como pedinte estudante estrangeiro, comprovar seu doutorado e sua bolsa garantida por tres anos, pra tentar conseguir um empréstimo rapido pra nao ser despejado em dois dias uteis. Ai, menina, é duro, viu?

Mas chega, não quero que vc pense que só reclamo, pq natal não é época de reclamar. Depois de amanhã, vamos ver o ano-novo em Times square, é tradição, né?, mas naquele esquema “em pé no meio da rua sem gastar nada”. E vc e o Antonio Carlos? Copa ou Búzios? Ai que inveja, amiga.

Da suspirante Penélope.

PS sobre sexo (PS=pós-sexo?) (alias, pq só lembro de sexo no PS? risos…!): bem, lembra quando falei que falta de grana fazia bem pro sexo? Pois é, agora estou entendendo exatamente como funciona esse mecanismo e estou usando a meu favor. O William, vc conhece a peça, tem o maior complexo de macho provedor, mas não sabe fazer nenhum conserto na casa, nada, nem furar parede, e como nem dinheiro está ganhando mais, a única coisa máscula que sobra pra ele demonstrar sua virilidade é sexo, entendeu? Se nem isso ele fizer, sei lá, acho q ele se auto-emascula. Então, minha filha, o que eu sei é que o homi está cada vez mais quente, nunca vi. E quando não está, agora eu já sei o truque. Chega a ser covardia. É assim. Ele tá lá, sentado, estudando, concentrado, e eu digo: vamos lá na Broadway ver um show, vamos?, e ele diz, vc sabe q a gente nao tem grana, Penélope… E eu digo: tá entrando vento por uma fresta da janela, pq vc não pega um pouco de massa e veda o buraco?, e ele diz, você sabe que eu me enrolo todo nessas coisas, penélope, mas deixa que de manhã eu falo com o super… (“super” é tipo o faz-tudo do predio!)… Aí eu digo, pô, então vem aqui e me come gostoso, vem… Cheque mate!


Assunto: as brasileiras sao as PUTAS do mundo!! Q ODIOOOOO!!!

Setembro 14, 2009

5 de novembro de 200_

Ai, amiga, você não sabe a raiva! Mas a culpa é nossa, viu? A gente não se dá o valor e não vão ser eles que vão dar. Eles vão é passar por cima. Esses putos gringos escrotos. Se acham muito cultos e civilizados, mas basta um pouco de cerveja e caem todas as máscaras! Que ODIO! Se o William tivesse do meu lado isso não tinha acontecido, mas eu tava sozinha, mais que sozinha, única brasileira, aliás única não-americana, e um colega lá do William, o mais bêbado, veio me perguntar se era verdade que todas as brasileiras faziam brazilian wax, um tipo de depilação que eles tem aqui, não sei nem como é, mas não deve ter nada de brasileiro!, e eu ia responder que cada brasileira se depila como quer, oras!, tem muitas que nem se depilam, mas não consegui nem abrir a boca, porque veio outro ainda mais bêbado dizer que as brasileiras eram muito gostooosas, as mais gostoooooosas do muuuundooooo!, e não entendi as palavras, mas entendi bem os gestos, e o olhar, e o tom, entendi os braços dele que se abriram como se tivesse descrevendo o peixe depois da pescaria, e entendi mais ainda a indignação da Rebecca, que é esposa de um outro colega do William lá do doutorado, e ela ficou completamente laranja, quase deu com o cardápio na cabeça do babaca, começou a gritar de volta, mas nada, menina, os bêbados estavam muito bêbados, haha, até parece que dá pra calar boca de bêbado, né? Ai, amiga, eu não queria tá lá, odeio sair sem o William, é como se ele fosse um acessório, sabe, eu me sinto nua! Mas o homem não sai mais de casa, só estuda estuda estuda, e não quero ficar me sentindo prisioneira da vida dele, e a pobre da Rebecca, que é uma fofa, insistiu tanto, se eu não fosse a única mulher seria ela, e eu, inocente, aceitei, mas que merda, viu, que arrependimento, esse tal departamento do William é um puta clube do bolinha, não tem nenhuma mulher, só um dos colegas é casado (o Brad, marido da Rebecca), todos os outros são uns merdas, solteiros, vinte e poucos anos, sabe?, imaturos, ignorantes, incapazes de manter uma mulher, vivem de pegar essas americanas vadias que vão sozinhas aos bares debruçar os peitões no balcão, que pagam boquete como a gente dá beijo na bochecha, e então ficam achando que toda mulher é tão vagabunda como essas infelizes que eles pegam! Ai, que ódioooo!!!

Aliás, tão vagabunda não. Mais vagabunda. Pra eles, eu sou ainda mais vagabunda. Sabia disso? Você também. Sabe por quê? Porque somos brasileiras! É, amiga, é isso mesmo. Aqui somos todas putas em potencial, panteras do carnaval, máquinas de sexo. Já estou quase ficando com vergonha de dizer que sou brasileira. O William tem uma conhecida italiana, solteira, que agora só se apresenta como eslovena, porque quando diz que é italiana, os americanos ficam todos saidinhos, querem passar a mão na bunda, acham que ela é fácil, e como a Eslovênia não é conhecida (olha, nem eu sei onde fica a Eslovênia!), os gringos não imaginam nada, não têm idéias pré-concebidas. Dá mesmo vontade de fazer isso, mas que raiva, viu?, quer dizer que agora vou ter que ter vergonha do meu país que amo tanto só porque meia dúzia de vagabundas não sabe se comportar? Vou ter que mentir sobre minha origem por causa das biscateiras, das putas, dos travecos? A gente aqui tentando constituir família honesta, trabalhar duro e ser feliz, e essas cachorras sujando e arrasando a imagem da mulher brasileira. Os gringos são uns ignorantes mas é culpa deles? Esse nosso governo populista, que só quer saber de dar esmola eleitoreira pro povo enquanto nos estorque mais impostos, é que culpado, é a gente que só vende o Brasil com foto de bunda e de cerveja, de praia e de carnaval. Me diz, amiga, a brasileira típica é essa mulata bunduda seminua dos cartazes turisticos e cartões postais? Você é assim?! Eu sou assim?! Nossas mães e avós são assim??!! Mas adianta negar?? Os gringos chegam no Brasil e a mulherada desesperada sem vergonha cai de boceta em cima deles, se vendem da maneira mais arreganhada, e olha que nem tô falando das putas, que pelo menos se vendem abertamente, mas das golpistas, das biscateiras, das piriguetes, das popozuda, das preparada, desse bando de piranha querendo macho estrangeiro a todo custo, disposta a tudo, chupando qualquer coisa! Outro dia, eu tava na lavanderia e encontrei uma baiana, assim bem moreninha, sabe?, e a gente começou a conversar, falamos do frio, e de Nova Iorque, e de saudades de casa, essas coisas, papinho besta, ela mostrou foto da filha que deixou no recôncavo, disse que tava aqui ilegal, que tinha feito strip e otras cositas más, cala-te boca, e eu, sem querer dar muito papo nem muitos detalhes da minha vida, não é só porque a mulher também é brasileira que vamos ficar amigas instantâneas e vou abrir minha vida pra ela, né?, nem conheço a criatura!, pois então faleu apenas que estava aqui com meu marido, mas depois, sem querer, deixei escapar o nome dele, nem me lembro o contexto, William isso, William aquilo*, e você precisava ver, os olhinhos dela brilharam, a mulher agarrou meu braço e começou a dizer que eu é que tinha sorte, como é que eu tinha conseguido?, ele tinha algum amigo, irmão, primo?, e eu não entendi nada, que irmão, minha filha?, tá maluca?, e ela desembestou dizendo que fazia de tudo pra catar um gringo, que era sua última esperança pra sair dessa vida, uma amiga que era dançarina tinha embuchado (ela falou assim mesmo, “embuchado”, por essa você imagina o nível da lady!) de um gringo e agora tinha até casa e campo em West-sei-lá-onde e casa de praia nos Hamptons, e aquilo me deixou tão revoltada, sabe?, por que é ela, é justamente ela, é essa vagabunda que queima o filme de todas nós, é por causa dela que eu não posso dizer que sou brasileira sem um americano idiota começar a visualizar a depilação da minha virilha, é por causa dela que me olham como se eu fosse uma biscateira, é por causa dela que escuto piadinhas cafajestas e aturo olhares canalhas, é por causa dela! O que eu ia dizer pra uma mulher dessas? Sério. Me diz. Será que ela não tem noção de como é ridícula? Será que essas oportunistas não entendem que as brasileiras que estão no exterior honestamente e tentando constituir família acabam esbarrando em tudo quanto é tipo de preconceito justamente porque os gringos pensam que eu sou como ela?! Será que não vê que fazer esse tipo de pergunta nos coloca no mesmo nível? É assim que ela me vê? Me encontra numa lavanderia e pensa, olha, essa aí sou eu ontem, essa aí não faz muito tempo tava tão doidinha pra catar um gringo quanto eu! Faça-me o favor! Será que essas vagabundas não entendem que só fazem desvalorizar seu passe? Que os gringos sentem o cheiro desse desespero? Que assim o máximo que conseguem é uma noite de sexo gratuito e olhe lá, coisa que até puta tem dignidade de não oferecer? Quem é que vai querer casar com uma mulher dessas? Sério. Você me diz! Ah, minha amiga, eu rodei a baiana. Aliás, baiana era ela, que saiu rodada, mexida, bamboleada, quem mandou vir mexer comigo?! Eu falei assim pra ela, bem assim: olha aqui, ó, tem muita brasileira nos Estados Unidos, donas de casa, estudantes, profissionais, lutando todo dia pra desfazer essa imagem medíocre que vocês construíram, pra mostrar que nós brasileiras somos mulheres de família, mulheres honestas!, então vê se pensa duas vezes antes de se oferecer pra um gringo safado, necessitado, desesperado que nunca vai te valorizar – até porque você não merece! Cai na real! O que você pensa? Pra eles, você é menos que uma prostituta! E essas vagabas bundudas, de terreiro de escola de samba no alto da favela, fazendo a dança da boquinha da garrafa, ou sei lá mais o quê, sei lá o que neguinho dança, se mostrando pra equipe de filmagem da Alemanha, desfilando na CNN pro mundo inteiro ver, vocês não sabem o preço alto que a gente paga, nem conseguiriam calcular com esses dois neurônios que vocês têm e não usam! Eu não sou que nem você não, viu? Você me respeite! Tenho família, tenho carreira, tenho estudo, sou honesta. Vim aqui pra acompanhar meu marido! Se era pra ter vindo pra cá sem emprego, sem ocupação, sem nada, pra ter que ficar dando por aí a torto e a direito, por que não ficou no Brasil, oras?! Vê se pensa duas vezes antes de me colocar no mesmo saco que você! Marido, gringo ou brasileiro, não se cata: a gente conquista com amor e mantém com confiança e honestidade. Pô, Léia, você sabe que não sou moralista, mas não dá, sério, não dá mesmo. E ainda mandei ela colocar a mão na consciência e se dar ao respeito, senão nenhuma brasileira seria respeitada, e nós não éramos todas como ela, não! Ufa! E isso fui eu aqui, escrevendo calmamente. Ok, talvez não calmamente, mas puxa, na lavanderia foi muito pior. Acho que exagerei um pouco, mas ela mereceu. Odeio essa mania de brasileiro de sempre querer se dar bem a qualquer custo. Por que é que elas não trabalham, né? Só querem vida boa! Assim é fácil!

Ih, mas eu nem contei do bar ainda! Volta tudo. Pois bem, os gringos tomaram todas e começaram a falar aquelas barbaridades que sempre pensam mas não tem coragem de dizer. E, olha, não eram pedreiros, não. Não tinha peão de obra no grupo. Eram todos colegas do William, doutorandos em Economia em uma das melhores universidades do mundo, gente culta, viajada, que estudou nas melhores escolas da costa leste, um povo teoricamente inteligente. E um deles deu um risinho babaca e perguntou se era verdade que as mulheres andavam nuas no Brasil e olhou pra mim com uma cara de quem tava perguntando, e você, vadia, anda nua também? Outro disse que estava louco pra ir ao Brasil pra poder catar quantas mulatas quisesse. Não entendi exatamente qual foi a palavra que ele usou pra catar, mas seu gestual não deixou dúvidas. O mais feioso de todos, com um cabelo ensebado que parece que não lava há dez anos, deu um suspiro e falou assim, ah, quem me dera, já no aeroporto sendo agarrado por três, quatro, cinco mulatas maravilhosas, peitudas, cheias de amor pra dar!! Amiga, estou aqui tentando lembrar todos os comentários, mas foi um pior que o outro. E eu ali, na frente deles, possessa, e todos sabiam que eu era casada, com um colega DELES!, e não deram a mínima! Ah, um gordo disse também que todos sabiam que a brasileira era a mulher mais calorosa do mundo e que se ele fosse lá, voltaria com umas três, no mínimo! E todos riram, apludiram, e disseram cheers! (Ah, mais uma, talvez a pior: o ensebado contou que o melhor amigo dele passou um carnaval no Rio e prometeu casamento pra três! Pra três!, e riu, o porcão!)

Sabe, eu tive que me segurar. Pra não dar escândalo. Pra manter a classe. Porque eu tenho classe, né? Eu ficava me dizendo que não era culpa deles. Afinal, não é assim que a gente se vende? O governo faz campanha no exterior sobre as perfurações em alto-mar da Petrobras? sobre o biocombustível? sobre as quebras de patentes dos medicamentos da aids? sobre as pesquisas de ponta em medicina tropical lá da Fiocruz onde eu trabalhei? Nada. Falam de bundas, carnaval, índios, mulheres, mata atlântica, bundas, macacos, café, futebol, samba, BUNDAS! É esse o Brasil? Esse não é meu Brasil não. Meu Brasil é mais que 200 milhões de bundas. Meu Brasil é uma nação ocidental, moderna, urbana, industrializada, cosmopolita, cuja língua européia é a sexta mais falada do mundo! Meu Brasil é o da Fiocruz, do Butantã, da UFRJ! Nunca vi ninguém dançar a dança da garrafa em Manguinhos! Então, os gringos têm culpa? Se o seboso pisar na praia de Copa e agitar o passaporte americano, vão ou não vão pular cinco vagabas no pescoço dele? É mentira isso? O cara não vai nem precisar lavar o cabelo pra ter neguinha brigando por ele, puxando o pixaim uma da outra em pleno calçadão. Pôxa, me revolta isso! Temos as praias mais lindas, a maior floresta do mundo, um povo feliz e cordial, não precisamos vender sexo pra atrair turista! Pra que a gente quer um turista que vem pro Brasil só atrás de bunda?!

Então, eu me segurei e falei, assim bem calma e pausadamente, que era muito triste eles julgarem o Brasil por causa de meia dúzia de vagabundas que eles viam nos DVDs sobre o carnaval, que o Brasil era um país enorme, com cidades modernas, ciência de ponta, balé e ópera, uma língua riquíssima, um exemplo de democracia racial para o mundo todo. E que mulher interesseira querendo casar a qualquer custo tem em qualquer lugar, pra não falar nas putas, que é a profissão mais antiga do mundo, e sim, tem puta no Brasil, talvez sejam até as melhores do mundo, mas aqui nos Estados Unidos também tem puta e biscateira, e eu não julgava o país deles por causa disso, julgava?, e pedia que eles também não julgassem o Brasil sem conhecer os fatos, e, sabe, estava tão óbvio que eu tava embargada, que eu tava quase chorando, que eu tava fazendo um esforço monstruoso pra falar tudo aquilo calmamente, em língua estrangeira, sem chorar, que acho que eles se comoveram, perceberam o absurdo que tinham dito, perceberam a dor que me fizeram passar, e ficaram calados me ouvindo, e quando parei, e quase, quase, chorei, me ofereceram água, e mudaram logo de assunto. Mas aí não dava mais, porque comecei a pensar em tantas amigas nossas que casaram com estrangeiros, a Keila, a Livia, a Maria Antonia, que se apaixonaram de verdade, que muitas vezes largaram carreiras estabelecidas e uma vida confortável no Brasil pra vir construir uma família honesta no exterior, pagando o preço alto que a gente paga por ser uma mulher estrangeira vivendo longe de casa, da família, dos amigos, não é fácil, não?, viu?, nunca pensei que sentiria falta de tanta besteira, de biscoito globo a goiabada cascão, e mesmo assim, mesmo com isso tudo, fiquei imaginando como deve ser conviver com as famílias dos maridos? Será que as famílias também olham pra elas como a baiana da lavanderia olhou pra mim? Pensando que é uma biscateira sortuda que deu o golpe do baú? Será que a Keila e a Lívia ainda por cima tem que suportar isso? Que piadinhas não devem ouvir sempre que o tio incoveniente bebe demais? (toda família tem um tio incoveniente) Será que são julgadas e colocadas no mesmo saco que as biscateiras, as oportunistas, as piriguetes, as putas, as vagabas, as pagodera? Será que elas tem culpa de ser brasileiras e amar um estrangeiro? Tem culpa de serem do mesmo país que as cachorras que fazem barbaridades nos bailes de carnaval pra inglês ver? Ai, amiga, aquilo foi horrível, porque eu tinha parado de falar, mas entrei nesse trem de raciocínio, e minha cabeça não parava mais, e eu queria parar de pensar, mas não conseguia, os pensamentos iam em frente, desabalados, e eu tentando me segurar, eu tentando não pensar, até que comecei a soluçar, e dos soluços passei a chorar, e quando abriram as torneiras, não pararam mais, sabe? Chorei tudo o que estava engasgado há tanto tempo, as saudades de casa, a humilhação de ser estrangeira, o frio que me come até os ossos, a vergonha de não ter grana, as dificuldades com o inglês que eu achava que sabia falar, até a falta de ralo, saiu tudo num choro só, e coitada da Rebecca, nem me conhecia direito (que vergonha, amiga!) mas me deu colo e segurou minha cabeça e me tirou dali, e me levou de táxi em casa. E quando cheguei em casa, o William já tava dormindo, tão bonitinho, com um livrão aberto no peito, daquele jeitinho fofo dele, de boca aberta, roncando um pouquinho. E eu fui, tirei os oculos dele, coloquei o livro no chao (é, amiga, não temos nem mesinha de cabeceira), tirei a maquiagem bem devagarinho, limpei aquelas lagrimas todas, passei meus cremes, escrevi esse email pra você (não vou nem reler, deve estar todo desconexo e cheio de erros, cruzes!) e agora vou deitar do lado do meu maridinho, porque amanhã é outro dia, graças a Deus. Beijos, Penélope
_________________________________________________________________________________
(*todos os nomes desse blog são fictícios para proteger os envolvidos, as miguxas e os bocudos. a partir desse post, trocamos o nome de “Paulo” por “William”, pois o seu nome verdadeiro também soa estrangeiro e, sem isso, o mal-entendido na lavanderia não faria sentido algum.)


Assunto: CHEGAAAA!!!

Fevereiro 1, 2009

13 de outubro de 200_

Não aguento mais, to quase admitindo derrota, jogando a toalha, sei lá mais o que, acho que nao consigo fazer esse mestrado nao, o dr thompson tem tanta fé em mim, mas não sei nao, nao sei, nao sei, teria que fazer 3 aulas por semestre e não to aguentando nem uma, as leituras são muito puxadas, fico horas com o dicionário do lado, os textos não acabam nunca, na aula nao entendo qse nada! olha q o dr tem paciencia, me trata como café com leite, não me chama pra falar, nada, imagina!, se ele me chama eu sumo pelo chão, escorrego entre os ladrilhos, seria o fim, o cumulo da vergonha, e até a minha lab partner pediu para pular fora, me abandonou, não quis nem saber, a puta, o dr tentou me explicar super com jeito, mas foi duro, aquela puta, nao era justo ficar com uma pessoa que não tava fazendo o curso pra nota, q nao entendia a língua, q não tava comited, preferiu ficar sozinha a ficar comigo, puta, saco, quer humilhação maior?! ai amiga, to de saco cheio de ser pobre, que saco!, no Rio, a gente ainda tinha estrutura, podia ir jantar com o seu Antunes e ele pagava a conta, tínhamos parentes, a mãe ajudava, sei lá, aqui não rola nada, não temos nada, uma ajuda, nada, na capital do mundo e nao podemos tomar um espresso na esquina, curti mais a cidade naquele carnaval de 94 do q nesses 3 últimos meses, nem um showzinho na Broadway, nem uma lingerie na macy’s, nada, saco! o pior é que não rola mesmo, somos estrangeiros recém-chegados, não temos crédito na praça, nossa conta nao tem cheque especial nem cartão, zero dólares é zero dólares mesmo, não tem o que negociar, não rola passar no cartão e jogar o problema pro mês seguinte, não rola gastar no cheque especial e se preocupar com os juros depois, não rola nem pedir emprestado pro pai ou filar almoço na mãe, e ainda por cima semana passada o maridón doutorando em economia que vai salvar as finanças da europa com sua tese, ho ho ho, calculou mal as contas da casa e fomos a zero, acredita?, zero!, sabe o que é isso? ZEROOOO! numa terra estrangeira, sem amigos sem parentes sem crédito, com zero dólares na conta! ZEROOOOO!!!!!!! nunca me senti tão humilhada, tive q fazer aqueles 20 dolares na minha carteira durarem a semana toda, e se tivéssemos uma emergência, caramba?! tudo culpa do maldito computador, mas nao!, o Paulo TEM que ter um notebook, porque todo mundo tem notebook, porque o computador lá do brasil era muito velho, bla bla bla! mas porque não temos cartão de crédito e ninguém parcela nada nesse país, tivemos que comprar o raio do notebook à vista e nossa conta bancária ainda não se recuperou. ZEROOOOO, amiga! Saca zero? Zero! Zerão! Agora não podemos comprar nem um picolé! O inverno está chegando e não temos dinheiro pra comprar casacos decentes. Sério! Sabe o que é isso? Estamos tendo que nos virar com os casaquinhos leves que trouxemos do Brasil. Pleno novembro em Nova York e não temos duzentos dólares pra comprar dois casacões. Aliás, não temos nem quarenta dólares pra comprar casacos na loja do exército da salvação. Isso não é vida, sério, juro mesmo! Que saudades da minha terraaaaa!!! Como é que as pessoas conseguem viver assim? Desculpa o desabafo, amiga. Penélope


Assunto: Penélope em Sala de Aula

Janeiro 31, 2009

22 de setembro de 200_

Oi Amiga!

Óia, estou ficando mais safa nesse negócio de internet, viu? Hoje assisti minha primeira aula e, depois, ainda fiz “download” dos “papers” no site da universidade. Tudo bem, demorou um pouco, mas consegui, “downlodei” os troços todos. Sou a própria conectada!

Lembra do Bill? (Me disseram que em sala tenho que chamá-lo de “Dr. Thompson”, senão pega mal!) Pois ele gostou do meu currículo, leu o “abstract” do meu artigo e ficou até impressionado de eu já ter sido professora-substituta da UFRJ (pagaram uma titica mas eu sabia que ainda iria servir pra alguma coisa!). Parece que funciona assim: ele vai me escrever uma carta de recomendação e, se me aceitarem, começo o mestrado em setembro do ano que vem. Enquanto isso, vou cursando umas aulinhas, pra me acostumar com o ritmo, melhorar no inglês, etc. Vou fazer as provas e tudo. Se não passar, vale como treino. Se passar, depois eles me dão os créditos retroativamente. O Bill, ou melhor, o “Dr. Thompson”, é o bã-bã-bã do departamento e tem estabilidade no emprego e tudo (aqui eles chamam de “tenure” e o concurso demora sete anos!). O Paulo falou que ele escrevendo a carta não tem como eu não entrar.

E, olha, amiga, vamos mesmo precisar de mais uma bolsa nessa família, porque a grana não dá. O salário do Paulo já vem descontado do imposto de renda, temos que pagar um plano de saúde carerérrimo que não cobre praticamente nada (nem me pergunte sobre “co-pay” e “deductible”, o Paulo tentou me explicar mas acho que nem ele entendeu!), mais as taxas todas da universidade, taxa do centro médico (mas já não paguei o plano de saúde, ora bolas?!), taxa do centro recreativo, taxa de manutenção do auditório, taxa da reciclagem, taxa disso, taxa daquilo, não sobra, nada amiga. Você precisa ver o meu carrinho de compras! Estou vivendo de cesta básica, arroz, macarrão, frango, ovo, leite, papel higiênico (ai minha bundinha), nada de supérfluos. Pior é o Paulo choramingando a falta de danoninho, homem parece criança, né? (Já eu sinto falta é de refresco de maracujá!)

Então, se eu conseguir mais essa bolsa, a gente poderia viver bem melhor, mas, de qualquer jeito, é só pra setembro do ano que vem, na melhor das hipóteses, até lá ainda faltam dez meses de apertar o cinto.

Aliás, agora entendo o estresse do Paulo nesses últimos dias. Nunca pensei que fosse tão sofrido. A gente tem o diplominha do IBEU e acha que fala inglês, mas basta meia aula de Histologia (minha área, pô! conheço todos os termos!) pra gente ver que não fala porcaria nenhuma! Você sabia que “resume” em inglês é “recomeçar” e não “resumir”? Que sufoco!

Agora que dá licença que vou brigar com os textos. Eu e meu dicionário temos uma longa noite pela frente e, ao contrário do Paulo, ele não faz massagem no meu ombro nem dá beijinho na nuca… Ai ai…

Da sua exausta,

Penélope em Nova York

PS I: falando em nomes estranhos, sabe como é quiabo em inglês? Okra. Não é um nome legal? Faz até parecer mais saboroso. E não é caro, acho que vou comprar e fazer um franguinho com quiabo. Aliás, não, chicken with okra, que é muito mais chique! Será que frango com chuchu também fica chique em inglês? Como é chuchu em inglês, aliás? Shoo-shoo? Ainda não vi vendendo! Será que existe? É tanta coisa que não existe nessa terra! O milho é doce, o abacate é salgado e o ovomaltine não é crocante! Pode isso?

PS II: ainda falando em nomes (desculpa os PSss mas é tão melhor escrever pra você do que ler sobre histologia em inglês!), você sabe como é bombril em inglês? Tem como descobrir isso na internet? Menina, você não sabe o meu sufoco! Já fiz até mímica de arear panela em pleno supermercado e ninguém soube me dizer, ficaram me mandando pedir SOS!

PS III: ok, esse é o último PS, mas cá vai. Não gosto de falar essas coisas pra amigas solteiras (pô, esse Caio é um verme, ele sumiu mesmo?), mas o Paulo tem estado uma delícia, viu? Nunca me senti tão unida a ele. O sexo não está dos melhores, ele tem estado exausto e eu, agora, na nova aula, entendo bem o porque, mas estamos mais amigos e mais unidos, sabe? Acho que é a falta de grana também. Falta de grana une que só! A gente está se beijando, se acariciando, se agarrando como nunca, ele fica horas e horas lendo os textos de economia comigo deitada no colo dele, me sentindo relaxada, amada, completa, plena, sentindo aquele cheiro de homem tão gostoso. Tem coisa melhor que cheiro de homem? Ai ai… E depois ainda ficamos horas e horas conversando, cada vez conversamos mais, e ele me explica a tese, fala dos fundos de pensão previdenciários, de como a Europa vai quebrar por causa do welfare estate (é assim que se escreve?), do exemplo do Chile, essas coisas importantes sobre os destinos do mundo e o futuro da humanidade, e eu me acho tão chatinha, só sei falar de DNA e RNA, genes recessivos e dominantes, mas vou te contar, escuta bem, valeu a pena essa viagem só pra eu me sentir de novo assim tão próxima do meu maridinho, viu? Que delícia. Marido é bom demais. Eu recomendo. :)

PS IV: tá, eu ia escrever mais uma coisa, mas não vou não. Aos “papers”, Penélope. Coragem!


Assunto: Dominar o mundo… sem ralo?!

Agosto 16, 2008

15 de setembro de 200_

Léia,

Obrigadíssima por ligar, minha linda. Você não sabe a diferença que faz ouvir uma voz amiga do outro lado da linha. O Paulo está estudando que nem um desesperado, ainda mais agora, primeiro mês, tudo novo, língua diferente, métodos diferentes. Acredita que ele já levou esporro de orientador por ter chegado duas aulas seguidas atrasado? Repara que o atraso foi de cinco minutos, mas o Paulo teve que ouvir que era aluno profissional agora e precisava ser mais responsável! Logo ele que sempre foi tão caxias! Você tinha que ver a cara dele quando entrou em casa! Parecia o menino que apanhou da mãe! Coitadinho! Mas, enfim, como eu dizia, o homem não pára um segundo, está estressadíssimo, então, sim, eu fico muito sozinha, e tudo isso foi pra dizer que sua ligação me ganhou a semana, amiga.

Estou te escrevendo porque hoje cheguei a uma conclusão inescapável: americano não sabe limpar as coisas com água. Sério. A primeira coisa que senti falta foi de bidê, isso eu já te contei. Esse povo deve ter a maior taxa de hemorróidas do mundo se passam a vida inteira esfregando papel na bunda, só pode ser. De todos os objetos da minha casa, com certeza, sinto mais falta do meu bidêzinho, coitado, nunca dei muito valor e agora choro por ele. Na primeira semana, fiquei toda assada. Agora, estou passando por todas as marcas mais caras de papel higiênico pra ver se alguma presta.

Depois, tem o drama da falta de tanque. Anteontem, o Paulo se distraiu e pisou num cocô de cachorro. É, amiga, até no primeiro mundo tem titica de cachorro na rua. Pois bem, ele me deu o sapato pra limpar e lá fui eu toda mulherzinha pro tanque. E cadê o tanque? Não tem tanque. E não é só no meu apartamento minúsculo, não: ninguém tem tanque nessa terra. Como esse país funciona, meu Deus? Como pretendem dominar o mundo sem tanque? Onde esse povo faz limpeza pesada? Onde limpam coisas nojentas? Era pra eu limpar o cocô da sola do sapato na pia onde escovo os dentes, na pia onde lavo louça ou na banheira onde tomo banho? Sério! (Acabei limpando com um paninho umedecido e depois joguei o pano fora. E avisei ao moço que o próximo cocô ele que limpe! Melhor passar a andar olhando pro chão!)

E não tem ralo. Não tem ralo na cozinha. Não tem ralo no banheiro. Não sei nem se existe esse conceito na língua inglesa. O pior é que eu nem dei pela falta até ser tarde demais. Decidi que estava na hora de lavar o banheiro, enchi um balde, despejei a água no chão, peguei o rodo que tinha acabado de comprar, comecei a arrastar a água pro ralo… e cadê o ralo? Não tem ralo! Amiga, que ódio. Sério, me senti a completa retardada. Não tinha mais pano (aliás, essa é outra coisa que não encontro aqui, pano de chão, socorro!) e sequei tudo com toalha de papel. Lá se foi quase um rolo todo.

Menina, que país é esse? Só depois me dei conta que tinha tudo a ver com água. Não posso limpar a bunda com água, não posso limpar o chão com água, não posso limpar nada com água. Limpeza, pra esse povo, só a seco. Como, não sei. Acho que vou perguntar pra alguma colega do Paulo. Lavar chão de cozinha e chão de banheiro sem balde d’água, isso não me ensinaram. Será algum método hiper secreto ultra tecnológico que ainda não chegou no terceiro mundo? Ou será que são eles que ainda não ouviram falar desa nova e versátil invenção, a água? Existem prateleiras sem fim de produtos de limpeza (antigerme, antifungo, antimancha, antiodor, antibactericida, antimãosdepenélope, antitudo), mas água, que é bom, nada. Aquela sensação gostosa de jogar um baldão de água no piso e sentir as bolhinhas de sabão nas solas dos pés, nunca mais. Mesmo com todos os produtos de limpeza do mundo, a casa fica sempre com aquele cheiro de meia usada, aquela sensação de banho de gato. Um horror. Não tem incenso que resolva.

Pois bem, minha linda, vai agora no seu banheiro e dá um belo abraço no seu ralo (beijo, não, ele pode ficar convencido!) e agradeça por ele estar lá. Quando é que eu iria imaginar que eu, chiquerrérrima, morando em Manhattan, o umbigo do mundo etc etc, a coisa que mais sentiria falta do Brasil seria justamente… meu ralo!

Da sua amiga faxineira mal-resolvida,

Penélope em Nova Iorque

PS: Na verdade, não sei se é falta de ralo ou falta da Dona Lourdes. Se ela estivesse aqui, com certeza daria um jeito de deixar a casa um brinco sem precisar de água. Ai, ai, saudades da Dona Lourdes…


Assunto: Penélope em Nova Iorque

Março 16, 2008

10 de setembro de 200_

Amiga,

Desculpe a demora! Você não sabe a confusão da minha vida! É tanta coisa pra arrumar de uma vez só! Pra abrir conta em banco tem que ter social security, pra ter social security tem que ter contracheque, pra ter contracheque o Paulo tem que estar matriculado, pra estar matriculado ele tem que ter tomado todas as vacinas obrigatórias, pra tomar as vacinas ele tem que ter plano de saúde, pra se inscrever no plano de saúde tem que ter social security! Uma loucura! Que saudades da minha terrinha, viu?

Enfim, já estamos na casa nova, se bem que casa é elogio, é um conjugado remelento que consome metade da nossa renda, num prédio caindo aos pedaços (aqui chamam brownstone), que não tem nem elevador mas pelo menos é perto da universidade. Conversamos muito, tínhamos outras opções no Brooklyn, eu ia ter até um jardinzinho interno!, mas o Paulo achou melhor apertarmos um pouco o cinto pra ele poder ir a pé pro trabalho. Assim, ele economiza não só tempo mas também dinheiro da passagem, né? Pra mim, o que pensei foi: iurú, estou morando em Manhattan! Sou ou não sou muito chique? Depois de pagar o aluguel, não vai sobrar dinheiro nem pra comida! Além de chiquerrérrima, vou ficar magérrima! Ai ai.

Já estou te escrevendo do novo computador e juro que vou aprender a usar essa tal de internet. Ah, você sabe, nunca gostei muito dessas coisas, nem tive saco mas, enfim, agora morando fora, como é que vou ler meu Jornal do Brasil? Falar com mamãe? Manter contato com as amigas? Vou aprender, vou aprender, paciência com essa burra velha!

Olha, tenho tanta coisa pra te contar que nem sei! Meu cérebro anda a mil, nunca estive tão elétrica. Daqui a pouco o Paulo vem me pegar, temos um concerto gratuito pra ir na universidade, vão tocar uma ópera de Verdi, ou de Puccini, sei lá! Como falta grana pra viver la vida loca nova-iorquina, temos que aproveitar todos os eventos gratuitos que aparecem, sabe como é, pra fingir que temos vida social! É isso ou Saturday Night Live na televisão e não vejo a m-e-n-o-r graça nesse programa bobo!

Amiga, o tempo é curto, mas vou te contar pelo menos da imigração. Que ódio, viu? Você sabe que nunca gostei desse país. Não é esnobismo, não, mas sério, sou adulta, não tenho saco pra filme de explosão, música eletrônica e fast food! E é só isso que tem aqui, me desculpa, ora bolas, mas a verdade tem que ser dita! Parece uma cultura de adolescentes! O Paulo quis vir, enfim, discutimos muito e viemos, é um investimento no nosso futuro, mas, olha, Deus, dá-me santa paciência! Porque esse povo é muito arrogante, meu Deus! Eles acham que são os donos do mundo e que não devem satisfação a ninguém!

Bem, o que houve no consulado você lembra, né? Eu tinha me jurado que nunca entraria em fila pra mendigar entrada no país dos outros, como se eu não tivesse o meu próprio país, obrigada!, mas são as coisas que a gente faz pelo casamento. Pois bem, comparado com o que houve no JFK, o consulado foi pinto. Foi pinto! Primeiro, não deixaram a gente passar juntos. O Paulo pegou um cucaracha que estava se achando muito importante só porque puseram um uniforminho nele. Começou a perguntar tudo da vida do Paulo, super rápido, com o maior sotaque, e você conhece o Paulo, né?, o inglês dele não é lá essas coisas, e olha que ele passou os últimos seis meses fazendo curso intensivo!, e quando ele fica nervoso, ele começa a gaguejar, fica pior ainda de entender, e o homem sem boa vontade nenhuma, quem ele pensou que a gente era?! Não entramos no país pra lavar prato que nem a família dele, não! O Paulo mostrou a carta da universidade, estava lá pra fazer doutorado, tá pensando o quê?! Doutorado! Eles acham que esse paizeco deles é grandes coisa, minha filha, que todo mundo quer entrar e ficar pra sempre! Dá vontade de dizer: ó, viemos só estudar e já vamos indo, quem não quer ficar aqui somos nós! Nova Iorque é bom mas não é o Rio de Janeiro não! Só sei é que o mexicano começou a fazer pouco do Paulo, ficou repetindo e remedando, dizendo “phd! phd! nice! very nice!”, logo ele, que mal deve ter o segundo grau! Francamente, o que se estuda pra ser guarda de imigração? Nada, né? Já eu peguei uma preta enorme, enorme!, tem uns gordos aqui como eu nunca vi, parece que vão explodir, uma mistura de paxá com Jabba the Hut, e ela também não teve a menor boa vontade comigo, falava que nem uma metralhadora e eu não entendia nada, meu inglês é ainda pior que o do Paulo! Se tivéssemos podido ficar juntos, pelo menos a gente tinha se ajudado! Enfim, quando o guarda mandou levarem o Paulo embora e ele estava sendo escoltado por dois guardas, eu dei um grito, sabia lá pra onde estavam levando meu marido!, ia ficar eu sozinha naquela situação?!, e ela viu que estávamos juntos e mandou me levarem também.

Minha amiga, nem te conto, ou melhor, vou contando, vou contando, foram as piores cinco horas da minha vida. Longe. Disparado. Nos revistaram de alto a baixo, vieram inclusive duas guardas mulheres só pra me apalpar. Abriram os saltos daqueles meus tamancos vermelhos, lembra, que a gente comprou na Copodarte?, rasgaram o forro do jogo de gamão do Paulo, e eu falei pra ele não trazer essa tranqueira!, botaram até cachorro pra nos cheirar! E o pior era o tom, sabe? Fizeram pouco da gente, ficavam repetindo “phd! phd! nice! very nice!” que nem uns macacos!, e ainda disseram que era suspeito trazermos tanta coisa, e nós tentamos explicar que estávamos de mudança! Pra quem iria passar três anos nessa terra maldita tinha era pouca coisa! E eles dizendo (ou pelo menos foi o que entendemos) que tanta coisa assim queria dizer que iríamos querer ficar pra sempre, melhor voltarmos logo. “Go back home! Back home!” Nada parecia adiantar, nessas horas bate um desespero que você não acredita. Mostramos várias vezes a carta da CAPES, tentamos explicar que quando acabasse o curso tínhamos obrigação contratual de voltar pra casa, não poderíamos ficar naquela terra maldita nem se quiséssemos!, mas eles não ouviam, não estavam nem aí pra nós. Foram mais de cinco horas naquela sala, eles vasculharam cada objeto, desarrumaram, abriram, destruíram, e o cucaracha sempre dizendo “phd! phd! nice! very nice!” e rindo, o canalha! Só pra debochar ainda mais, ele ficava falando comigo em espanhol e eu respondia que era brasileira, não falo espanhol, falo português! Como podem querer ser os donos do mundo se nem sabem que no Brasil se fala português! Não sabem nada do mundo e querem mandar em tudo!

Menina, eu chorei muito, pedi, implorei, só faltei ajoelhar. Teve uma hora que uma outra guarda, uma loira, chegou a nos dar os documentos e dizer que seríamos deportados, não tinha jeito, e nessa hora até o Paulo chorou. Não diz pra ele que eu te contei. Foi horrível. A gente nunca deve ver nem o pai nem o marido chorando. Coitado do meu amorzinho! Eu nem sei como a situação acabou se resolvendo. Os gringos falavam entre si e não nos diziam nada, até que começaram a juntar as nossas coisas e jogar dentro da mala, e fui ajudando eles a arrumar (senão a mala não fechava!), mas também não falei nada, e quando as malas estavam fechadas, eles só colocaram elas no chão, nos devolveram nossos documentos e apontaram pra porta, sabe, assim que nem cachorro, e fomos saindo devagarzinho, e o Paulo ainda estava tão baratinado que apertou as mãos de dois deles e agradeceu! Isso eu briguei com ele depois, sabe? Não mencionei o choro, Deus sabe que nunca vou mencionar o choro pra ele!, mas disse que ele realmente não deveria ter agradecido coisa nenhuma! Não devíamos nada pra eles! Era pra termos pego nossas malas e ido embora, de queixo erguido, não se rebaixando que nem dois cucarachas!

Olha, que ódio, viu, amiga? Que ódio! Já estou contando as horas pra sair desse país! Tomara que três anos passem depressa! Que saudades do meu Brasil onde as pessoas não são humilhadas desse jeito!

Agora tenho que ir que o Paulo já está aqui faz cinco minutos me cutucando, e eu prometi que ia só acabar de te contar isso e não contava mais nada! Nem comentei do seu email, mas fica pra próxima!

Da sua amiga,

Penélope em Nova Iorque


Assunto: Estamos indo, iurrú!

Março 16, 2008

15 de agosto de 200_

Queridíssima Léia,

Pois é, está chegando a hora, minha amiga! Estou te escrevendo da porta da rua! Embarcamos pra Nova Iorque hoje à noite e o Paulo está só me esperando para formatar o computador. Ele não quer o sobrinho dele futucando nossas coisas! Assim que chegarmos lá, vamos comprar tudo novo! Com esse dólar, é besteira levar computador velho do Brasil, né?

Amiga, desculpa o sumiço! Você não sabe como esses últimos meses foram estressantes! Queria tanto que você tivesse podido vir pra nossa festa de despedida! Maldito marido que te monopoliza! Brincadeirinha! Ah, foi lindo mas também tão estranho! Levantamos um bom dinheiro, conseguimos vender quase tudo o que tínhamos, inclusive todos os presentes de casamento – muitas vezes para as mesmas pessoas que deram! Por exemplo, o Klabin comprou de volta o mesmo aparelho de DVD que deu pra gente, acredita? Disse que era pra colocar no quarto no filho!

O apartamento está vazio, vazio. Tantas alegrias, tantas histórias, e agora sobramos só eu e o Paulo – e seis malas. Até nosso sofá, lembra do sofá?, palco de tantas putarias!, já foi embora. A Lia e o Thomas acabaram de comprar uma casinha de praia em Camboinhas, não queriam gastar muito pra mobiliar, e acabaram levando quase tudo, inclusive as coisas grandes, geladeira, fogão, por aí. Vieram aqui ontem com uma Kombi e foram direto pra lá. Chega a ser bonito, sabe? Eles são jovens, recém-casados, espero que essa tranqueira dê tanta sorte pra eles quanto pra nós!

Mas a verdade é que não sobrou nada, amiga! Queimamos todas as pontes! Largamos nossos empregos, vendemos tudo, já devolvemos o apartamento, só não dei uma banana pra sogra porque nunca se sabe, não é? hehe… A cada coisinha que era vendida, eu pensava: menos uma âncora me prendendo no Brasil! Agora, estou me sentindo leve, pronta pra voar, pra começar essa nova aventura!

Ainda não sabemos nada, não adianta perguntar. Vamos ficar uns dias na casa de um colega de departamento do Paulo até conseguirmos arrumar um pouso certo. Nossa única renda vai ser a bolsa dele, eu não vou poder trabalhar e Manhattan é SUPER caro, então é bem capaz de termos que morar bem longe, Queens, Brooklyn, sei lá. O pobrezinho do Paulo é que vai ficar encalhado bem naquela rotina de pobre mesmo, horas e horas no metrô todo dia, mas eu mal posso esperar pra estar longe de toda essa violência! Mas, enfim, essas coisas só dá pra resolver pessoalmente. Não podemos alugar do Brasil! Esse ano, perdi a data da inscrição, mas quero ver se ano que vem me inscrevo pra fazer mestrado, aí pelo menos dobramos a renda. Já que vou estar lá mesmo, no ambiente universitário ainda por cima, não custa nada. Pelo contrário, ainda paga! Iurú! Quer coisa mais chique do que ser paga pra estudar em Manhattan? Eu sempre te disse que eu era chique!

O Paulo foi aceito no doutorado de Economia da ___. Ele vai ganhar cerca de __ mil dólares por ano (aqui eles ganham por ano, não por mês!), vai ter que dar __ aulas por semestre e vai ter três anos de bolsa até terminar a tese. E, quando terminar, ele tem que voltar pro Brasil, ou devolver o dinheiro todo, com juros, pra Capes. Os amigos que já fizeram isso contam que é um momento horrível, como se o Brasil fosse uma bola de ferro no seu tornozelo: você passa anos e anos no estrangeiro, se adapta, cria algumas raízes, faz contatos e, logo quando se forma e começa a receber ofertas de trabalho em dólar, tem que largar tudo e voltar pro caos da terrinha! Mas é super justo, sabe?, nem vem!, porque somos um país pobre, todos os trocadores de ônibus e empregadas domésticas que estão fazendo vaquinha pra pagar a nossa estadia em Nova Iorque merecem, no mínimo, que voltemos pra aplicar esses conhecimentos pro bem do Brasil, não?! Senão, é muita canalhice!

Então, é isso, amiga. Vamos e já voltamos, não se preocupe! Ainda mais porque o Paulo jamais vai tirar aquele escorpião do bolso e dar __ mil dólares de volta aos cofres públicos, especialmente com essas idéias dele sobre o tamanho do Estado no Brasil! Só você ouvindo! Aliás, não, não, não ouça, não vale a pena! Ninguém merece! Enquanto isso, eu vou morrer de saudades do Brasil, das minhas amigas, dos meus alunos, de você e até mesmo, por que não?, de aplaudir o pôr-do-sol no Arpoador e vigiar os pivetes ao mesmo tempo.

Deixa eu ir que o maridón já está me cutucando aqui.

Da sua amiga de sempre,

Penélope

PS: Amiga, mais um minutinho! Não te falei das chaves! Eu andei a vida inteira com um chaveiro enorme, chaves da porta da frente e da detrás, chaves do armário da garagem e do depósito do sítio, chaves do meu escritório na escola e da vitrine da loja, dezenas e dezenas de chaves. Aí fui entregando uma, devolvendo outra, até que não sobrou nenhuma. Sou oficialmente uma mulher sem-chaves! De agora até nos mudarmos para um novo apartamento (sabe-se lá quanto tempo isso vai demorar!), eu e Paulo não temos mais uma porta sequer que possamos abrir. Nenhuma fechadura nos pertence. Pois então, a liberdade é isso: liberdade é não ter chaves!