5 de novembro de 200_
Ai, amiga, você não sabe a raiva! Mas a culpa é nossa, viu? A gente não se dá o valor e não vão ser eles que vão dar. Eles vão é passar por cima. Esses putos gringos escrotos. Se acham muito cultos e civilizados, mas basta um pouco de cerveja e caem todas as máscaras! Que ODIO! Se o William tivesse do meu lado isso não tinha acontecido, mas eu tava sozinha, mais que sozinha, única brasileira, aliás única não-americana, e um colega lá do William, o mais bêbado, veio me perguntar se era verdade que todas as brasileiras faziam brazilian wax, um tipo de depilação que eles tem aqui, não sei nem como é, mas não deve ter nada de brasileiro!, e eu ia responder que cada brasileira se depila como quer, oras!, tem muitas que nem se depilam, mas não consegui nem abrir a boca, porque veio outro ainda mais bêbado dizer que as brasileiras eram muito gostooosas, as mais gostoooooosas do muuuundooooo!, e não entendi as palavras, mas entendi bem os gestos, e o olhar, e o tom, entendi os braços dele que se abriram como se tivesse descrevendo o peixe depois da pescaria, e entendi mais ainda a indignação da Rebecca, que é esposa de um outro colega do William lá do doutorado, e ela ficou completamente laranja, quase deu com o cardápio na cabeça do babaca, começou a gritar de volta, mas nada, menina, os bêbados estavam muito bêbados, haha, até parece que dá pra calar boca de bêbado, né? Ai, amiga, eu não queria tá lá, odeio sair sem o William, é como se ele fosse um acessório, sabe, eu me sinto nua! Mas o homem não sai mais de casa, só estuda estuda estuda, e não quero ficar me sentindo prisioneira da vida dele, e a pobre da Rebecca, que é uma fofa, insistiu tanto, se eu não fosse a única mulher seria ela, e eu, inocente, aceitei, mas que merda, viu, que arrependimento, esse tal departamento do William é um puta clube do bolinha, não tem nenhuma mulher, só um dos colegas é casado (o Brad, marido da Rebecca), todos os outros são uns merdas, solteiros, vinte e poucos anos, sabe?, imaturos, ignorantes, incapazes de manter uma mulher, vivem de pegar essas americanas vadias que vão sozinhas aos bares debruçar os peitões no balcão, que pagam boquete como a gente dá beijo na bochecha, e então ficam achando que toda mulher é tão vagabunda como essas infelizes que eles pegam! Ai, que ódioooo!!!
Aliás, tão vagabunda não. Mais vagabunda. Pra eles, eu sou ainda mais vagabunda. Sabia disso? Você também. Sabe por quê? Porque somos brasileiras! É, amiga, é isso mesmo. Aqui somos todas putas em potencial, panteras do carnaval, máquinas de sexo. Já estou quase ficando com vergonha de dizer que sou brasileira. O William tem uma conhecida italiana, solteira, que agora só se apresenta como eslovena, porque quando diz que é italiana, os americanos ficam todos saidinhos, querem passar a mão na bunda, acham que ela é fácil, e como a Eslovênia não é conhecida (olha, nem eu sei onde fica a Eslovênia!), os gringos não imaginam nada, não têm idéias pré-concebidas. Dá mesmo vontade de fazer isso, mas que raiva, viu?, quer dizer que agora vou ter que ter vergonha do meu país que amo tanto só porque meia dúzia de vagabundas não sabe se comportar? Vou ter que mentir sobre minha origem por causa das biscateiras, das putas, dos travecos? A gente aqui tentando constituir família honesta, trabalhar duro e ser feliz, e essas cachorras sujando e arrasando a imagem da mulher brasileira. Os gringos são uns ignorantes mas é culpa deles? Esse nosso governo populista, que só quer saber de dar esmola eleitoreira pro povo enquanto nos estorque mais impostos, é que culpado, é a gente que só vende o Brasil com foto de bunda e de cerveja, de praia e de carnaval. Me diz, amiga, a brasileira típica é essa mulata bunduda seminua dos cartazes turisticos e cartões postais? Você é assim?! Eu sou assim?! Nossas mães e avós são assim??!! Mas adianta negar?? Os gringos chegam no Brasil e a mulherada desesperada sem vergonha cai de boceta em cima deles, se vendem da maneira mais arreganhada, e olha que nem tô falando das putas, que pelo menos se vendem abertamente, mas das golpistas, das biscateiras, das piriguetes, das popozuda, das preparada, desse bando de piranha querendo macho estrangeiro a todo custo, disposta a tudo, chupando qualquer coisa! Outro dia, eu tava na lavanderia e encontrei uma baiana, assim bem moreninha, sabe?, e a gente começou a conversar, falamos do frio, e de Nova Iorque, e de saudades de casa, essas coisas, papinho besta, ela mostrou foto da filha que deixou no recôncavo, disse que tava aqui ilegal, que tinha feito strip e otras cositas más, cala-te boca, e eu, sem querer dar muito papo nem muitos detalhes da minha vida, não é só porque a mulher também é brasileira que vamos ficar amigas instantâneas e vou abrir minha vida pra ela, né?, nem conheço a criatura!, pois então faleu apenas que estava aqui com meu marido, mas depois, sem querer, deixei escapar o nome dele, nem me lembro o contexto, William isso, William aquilo*, e você precisava ver, os olhinhos dela brilharam, a mulher agarrou meu braço e começou a dizer que eu é que tinha sorte, como é que eu tinha conseguido?, ele tinha algum amigo, irmão, primo?, e eu não entendi nada, que irmão, minha filha?, tá maluca?, e ela desembestou dizendo que fazia de tudo pra catar um gringo, que era sua última esperança pra sair dessa vida, uma amiga que era dançarina tinha embuchado (ela falou assim mesmo, “embuchado”, por essa você imagina o nível da lady!) de um gringo e agora tinha até casa e campo em West-sei-lá-onde e casa de praia nos Hamptons, e aquilo me deixou tão revoltada, sabe?, por que é ela, é justamente ela, é essa vagabunda que queima o filme de todas nós, é por causa dela que eu não posso dizer que sou brasileira sem um americano idiota começar a visualizar a depilação da minha virilha, é por causa dela que me olham como se eu fosse uma biscateira, é por causa dela que escuto piadinhas cafajestas e aturo olhares canalhas, é por causa dela! O que eu ia dizer pra uma mulher dessas? Sério. Me diz. Será que ela não tem noção de como é ridícula? Será que essas oportunistas não entendem que as brasileiras que estão no exterior honestamente e tentando constituir família acabam esbarrando em tudo quanto é tipo de preconceito justamente porque os gringos pensam que eu sou como ela?! Será que não vê que fazer esse tipo de pergunta nos coloca no mesmo nível? É assim que ela me vê? Me encontra numa lavanderia e pensa, olha, essa aí sou eu ontem, essa aí não faz muito tempo tava tão doidinha pra catar um gringo quanto eu! Faça-me o favor! Será que essas vagabundas não entendem que só fazem desvalorizar seu passe? Que os gringos sentem o cheiro desse desespero? Que assim o máximo que conseguem é uma noite de sexo gratuito e olhe lá, coisa que até puta tem dignidade de não oferecer? Quem é que vai querer casar com uma mulher dessas? Sério. Você me diz! Ah, minha amiga, eu rodei a baiana. Aliás, baiana era ela, que saiu rodada, mexida, bamboleada, quem mandou vir mexer comigo?! Eu falei assim pra ela, bem assim: olha aqui, ó, tem muita brasileira nos Estados Unidos, donas de casa, estudantes, profissionais, lutando todo dia pra desfazer essa imagem medíocre que vocês construíram, pra mostrar que nós brasileiras somos mulheres de família, mulheres honestas!, então vê se pensa duas vezes antes de se oferecer pra um gringo safado, necessitado, desesperado que nunca vai te valorizar – até porque você não merece! Cai na real! O que você pensa? Pra eles, você é menos que uma prostituta! E essas vagabas bundudas, de terreiro de escola de samba no alto da favela, fazendo a dança da boquinha da garrafa, ou sei lá mais o quê, sei lá o que neguinho dança, se mostrando pra equipe de filmagem da Alemanha, desfilando na CNN pro mundo inteiro ver, vocês não sabem o preço alto que a gente paga, nem conseguiriam calcular com esses dois neurônios que vocês têm e não usam! Eu não sou que nem você não, viu? Você me respeite! Tenho família, tenho carreira, tenho estudo, sou honesta. Vim aqui pra acompanhar meu marido! Se era pra ter vindo pra cá sem emprego, sem ocupação, sem nada, pra ter que ficar dando por aí a torto e a direito, por que não ficou no Brasil, oras?! Vê se pensa duas vezes antes de me colocar no mesmo saco que você! Marido, gringo ou brasileiro, não se cata: a gente conquista com amor e mantém com confiança e honestidade. Pô, Léia, você sabe que não sou moralista, mas não dá, sério, não dá mesmo. E ainda mandei ela colocar a mão na consciência e se dar ao respeito, senão nenhuma brasileira seria respeitada, e nós não éramos todas como ela, não! Ufa! E isso fui eu aqui, escrevendo calmamente. Ok, talvez não calmamente, mas puxa, na lavanderia foi muito pior. Acho que exagerei um pouco, mas ela mereceu. Odeio essa mania de brasileiro de sempre querer se dar bem a qualquer custo. Por que é que elas não trabalham, né? Só querem vida boa! Assim é fácil!
Ih, mas eu nem contei do bar ainda! Volta tudo. Pois bem, os gringos tomaram todas e começaram a falar aquelas barbaridades que sempre pensam mas não tem coragem de dizer. E, olha, não eram pedreiros, não. Não tinha peão de obra no grupo. Eram todos colegas do William, doutorandos em Economia em uma das melhores universidades do mundo, gente culta, viajada, que estudou nas melhores escolas da costa leste, um povo teoricamente inteligente. E um deles deu um risinho babaca e perguntou se era verdade que as mulheres andavam nuas no Brasil e olhou pra mim com uma cara de quem tava perguntando, e você, vadia, anda nua também? Outro disse que estava louco pra ir ao Brasil pra poder catar quantas mulatas quisesse. Não entendi exatamente qual foi a palavra que ele usou pra catar, mas seu gestual não deixou dúvidas. O mais feioso de todos, com um cabelo ensebado que parece que não lava há dez anos, deu um suspiro e falou assim, ah, quem me dera, já no aeroporto sendo agarrado por três, quatro, cinco mulatas maravilhosas, peitudas, cheias de amor pra dar!! Amiga, estou aqui tentando lembrar todos os comentários, mas foi um pior que o outro. E eu ali, na frente deles, possessa, e todos sabiam que eu era casada, com um colega DELES!, e não deram a mínima! Ah, um gordo disse também que todos sabiam que a brasileira era a mulher mais calorosa do mundo e que se ele fosse lá, voltaria com umas três, no mínimo! E todos riram, apludiram, e disseram cheers! (Ah, mais uma, talvez a pior: o ensebado contou que o melhor amigo dele passou um carnaval no Rio e prometeu casamento pra três! Pra três!, e riu, o porcão!)
Sabe, eu tive que me segurar. Pra não dar escândalo. Pra manter a classe. Porque eu tenho classe, né? Eu ficava me dizendo que não era culpa deles. Afinal, não é assim que a gente se vende? O governo faz campanha no exterior sobre as perfurações em alto-mar da Petrobras? sobre o biocombustível? sobre as quebras de patentes dos medicamentos da aids? sobre as pesquisas de ponta em medicina tropical lá da Fiocruz onde eu trabalhei? Nada. Falam de bundas, carnaval, índios, mulheres, mata atlântica, bundas, macacos, café, futebol, samba, BUNDAS! É esse o Brasil? Esse não é meu Brasil não. Meu Brasil é mais que 200 milhões de bundas. Meu Brasil é uma nação ocidental, moderna, urbana, industrializada, cosmopolita, cuja língua européia é a sexta mais falada do mundo! Meu Brasil é o da Fiocruz, do Butantã, da UFRJ! Nunca vi ninguém dançar a dança da garrafa em Manguinhos! Então, os gringos têm culpa? Se o seboso pisar na praia de Copa e agitar o passaporte americano, vão ou não vão pular cinco vagabas no pescoço dele? É mentira isso? O cara não vai nem precisar lavar o cabelo pra ter neguinha brigando por ele, puxando o pixaim uma da outra em pleno calçadão. Pôxa, me revolta isso! Temos as praias mais lindas, a maior floresta do mundo, um povo feliz e cordial, não precisamos vender sexo pra atrair turista! Pra que a gente quer um turista que vem pro Brasil só atrás de bunda?!
Então, eu me segurei e falei, assim bem calma e pausadamente, que era muito triste eles julgarem o Brasil por causa de meia dúzia de vagabundas que eles viam nos DVDs sobre o carnaval, que o Brasil era um país enorme, com cidades modernas, ciência de ponta, balé e ópera, uma língua riquíssima, um exemplo de democracia racial para o mundo todo. E que mulher interesseira querendo casar a qualquer custo tem em qualquer lugar, pra não falar nas putas, que é a profissão mais antiga do mundo, e sim, tem puta no Brasil, talvez sejam até as melhores do mundo, mas aqui nos Estados Unidos também tem puta e biscateira, e eu não julgava o país deles por causa disso, julgava?, e pedia que eles também não julgassem o Brasil sem conhecer os fatos, e, sabe, estava tão óbvio que eu tava embargada, que eu tava quase chorando, que eu tava fazendo um esforço monstruoso pra falar tudo aquilo calmamente, em língua estrangeira, sem chorar, que acho que eles se comoveram, perceberam o absurdo que tinham dito, perceberam a dor que me fizeram passar, e ficaram calados me ouvindo, e quando parei, e quase, quase, chorei, me ofereceram água, e mudaram logo de assunto. Mas aí não dava mais, porque comecei a pensar em tantas amigas nossas que casaram com estrangeiros, a Keila, a Livia, a Maria Antonia, que se apaixonaram de verdade, que muitas vezes largaram carreiras estabelecidas e uma vida confortável no Brasil pra vir construir uma família honesta no exterior, pagando o preço alto que a gente paga por ser uma mulher estrangeira vivendo longe de casa, da família, dos amigos, não é fácil, não?, viu?, nunca pensei que sentiria falta de tanta besteira, de biscoito globo a goiabada cascão, e mesmo assim, mesmo com isso tudo, fiquei imaginando como deve ser conviver com as famílias dos maridos? Será que as famílias também olham pra elas como a baiana da lavanderia olhou pra mim? Pensando que é uma biscateira sortuda que deu o golpe do baú? Será que a Keila e a Lívia ainda por cima tem que suportar isso? Que piadinhas não devem ouvir sempre que o tio incoveniente bebe demais? (toda família tem um tio incoveniente) Será que são julgadas e colocadas no mesmo saco que as biscateiras, as oportunistas, as piriguetes, as putas, as vagabas, as pagodera? Será que elas tem culpa de ser brasileiras e amar um estrangeiro? Tem culpa de serem do mesmo país que as cachorras que fazem barbaridades nos bailes de carnaval pra inglês ver? Ai, amiga, aquilo foi horrível, porque eu tinha parado de falar, mas entrei nesse trem de raciocínio, e minha cabeça não parava mais, e eu queria parar de pensar, mas não conseguia, os pensamentos iam em frente, desabalados, e eu tentando me segurar, eu tentando não pensar, até que comecei a soluçar, e dos soluços passei a chorar, e quando abriram as torneiras, não pararam mais, sabe? Chorei tudo o que estava engasgado há tanto tempo, as saudades de casa, a humilhação de ser estrangeira, o frio que me come até os ossos, a vergonha de não ter grana, as dificuldades com o inglês que eu achava que sabia falar, até a falta de ralo, saiu tudo num choro só, e coitada da Rebecca, nem me conhecia direito (que vergonha, amiga!) mas me deu colo e segurou minha cabeça e me tirou dali, e me levou de táxi em casa. E quando cheguei em casa, o William já tava dormindo, tão bonitinho, com um livrão aberto no peito, daquele jeitinho fofo dele, de boca aberta, roncando um pouquinho. E eu fui, tirei os oculos dele, coloquei o livro no chao (é, amiga, não temos nem mesinha de cabeceira), tirei a maquiagem bem devagarinho, limpei aquelas lagrimas todas, passei meus cremes, escrevi esse email pra você (não vou nem reler, deve estar todo desconexo e cheio de erros, cruzes!) e agora vou deitar do lado do meu maridinho, porque amanhã é outro dia, graças a Deus. Beijos, Penélope
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(*todos os nomes desse blog são fictícios para proteger os envolvidos, as miguxas e os bocudos. a partir desse post, trocamos o nome de “Paulo” por “William”, pois o seu nome verdadeiro também soa estrangeiro e, sem isso, o mal-entendido na lavanderia não faria sentido algum.)